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Fé em tempos de rede

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Frequentemente alguém pergunta se é possível cultivar a fé via internet através de estudos, seguimento a alguém, músicas, vídeos, orações, etc. Então, vamos por passos. Primeiramente, penso que seja necessário superar a ideia de que a internet seja um meio ou um instrumento que usamos. De fato, as novas tecnologias dos últimos 30 anos representam uma verdadeira virada antropológica na humanidade. Hoje talvez seja mais adequado falar em ambientes digitais. Se pensamos num meio ou instrumento, o que se entende é uma espécie de separação e autonomia do sujeito que os utiliza em relação aos mesmos. Seriam apenas meios, mas o sujeito determina o fim. Não é o que acontece com os ambientes digitais. Nesses desenrolam-se verdadeiras vivências!

A virada antropológica que ventilamos acima se refere a uma mudança no estatuto ontológico do ser humano. De um lado, somos interdependentes, não vivemos sem os outros, só aprendemos com os outros, e a estrutura da vida humana é comunhão. De outro, hoje, é preciso dizer que esse dado comunicacional originário do nosso ser se descortina nas redes digitais, revela-se aí, vivencia-se digitalmente. Portanto, vivemos, circulamos, curtimos, compartilhamos, rezamos, lemos, estudamos, dialogamos nos ambientes digitais. Somos digitais na atualidade. Nessa perspectiva, é preciso dizer que o nosso ser digital se expressa também na fé.

Os ambientes digitais podem proporcionar autênticas experiências de fé. Assim, é preciso dizer que o mundo virtual não se opõe ao mundo real, como se aquele não fosse vivido ou irreal. Virtual quer dizer, acima de tudo, como a palavra expressa em sua origem, potencialização. É assim que os ambientes digitais potencializam o mundo vivido no chão da vida.

Hoje é mais fácil encontrar estudos e textos para dirimir nossas dúvidas, nos orientar em ambientes digitais, pesquisar a vida e a história de figuras ilustres da nossa religião e muito mais. Porém, algumas preocupações devem ser salientadas aqui. Primeiramente: o que ler? Em que acreditar? É tanta oferta que um nativo digital se perde ou então passa a reproduzir o que lhe chamou a atenção primeiro (quem vai na frente bebe água limpa) ou o que o seduziu pela insistência ou repetição (água mole em pedra dura tanto bate até que fura) ou talvez ainda se faça a adesão porque se forma uma identidade tribal conforme a linguagem do grupo mais próximo. Isso é preocupante, pois o horizonte da verdade está mais distante do que aquele do chão da vida. Daí, os ambientes digitais favorecerem mais e mais a difusão do relativismo e individualismo. Por isso, o mundo digital vem se tornando um self service a céu aberto digitalmente. Ainda não se vê o favorecimento da comunhão e a construção da comunidade, pois o chão vivido é imprescindível. Assim, grupos e redes digitais só amadurecem humanamente no chão real e no encontro encarnado.

Um segundo risco é desenvolver uma espiritualidade intimista, individualista e de cunho sentimentalista, pois, no ambiente digital, tudo é muito fácil (curtir, compartilhar, bloquear, esconder-se…), mas na espiritualidade encarnada é aprendizado mútuo, é silêncio e escuta do outro, é domínio de si e respeito à diferença. É engendramento antropológico que exige elaboração. Nas redes, tudo é mais ligeiro e seduz mais rapidamente, sem a elaboração antropológica que amadurece no tempo.

A partir daqui brota um terceiro desafio: é que nas redes digitais somos conduzidos, pois a tecnologia tem uma linguagem programada. Por exemplo, se eu compartilho um vídeo reproduzo a intenção do programador. E assim por diante, uma curtida com alguma representação gráfica tem o mesmo efeito no afeto das pessoas. A reprodução em série pode se tornar demolidora. Além do mais os ambientes digitais dão a falsa impressão de empoderamento, quando na verdade nos direcionam. Por isso, nem sempre os ambientes digitais favorecem a liberdade de desenvolver o pensamento crítico e mergulhado na história.

Concluindo, podemos dizer que é inevitável experimentar a fé também em tempos de redes digitais. Vivemos nesses ambientes. A diferença é que eles trazem novos desafios que temos de enfrentar e dar respostas éticas e criativas. Não basta dizer sim ou não. É preciso elaborar a resposta comunitariamente. Eis aí mais um desafio que se apresenta à fé cristã.

Padre Márcio Paiva

Professor da PUC Minas, apresenta na TV Horizonte o  programa Conexões: espiritualidade e cotidiano

Fonte: Arquidiocese de BH

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